Sociedade

Entrevista:
“Sinto que não posso fugir. Estamos a falar do meu país”.

22 Março, 2017

 

Quando é que decidiu que queria ser escritor? Quer contar-nos quando e como é que aconteceu o clique?

O clique começa com uma poesia, no âmbito de uma discussão em Moçambique se vale ou não a pena a poesia de combate – bem, talvez não se discuta assim tanto como seria desejável. Seja como for, existe uma poesia de combate e li muita poesia de combate. E é engraçado que esta poesia nos impele uma certa energia interior, um certo vigor. E de repente estava a declamar aqueles versos e imediatamente nasceu algo dentro de mim.

Que idade tinha?

Deveria ter 15 anos.

Na família havia pessoas ligadas à cultura?

Tenho um tio, Elias Manjate, que era artista plástico e o meu pai também pintava. Apesar de ter crescido com a minha mãe, foi com o meu pai que aprendi a poesia de combate. Os primeiros textos de poesia de combate que li foi de estar com o meu pai. Depois li outras coisas que ele tinha, como escritores angolanos. Li muitos textos de José Craveirinha e recordo-me do livro Reza, Maria. Aliás, perderam-se lamentavelmente muitos desses textos que tiveram muita importância na minha formação ao ponto que poderiam, hoje, acusar-me de plágio. Em suma, erai uma poesia que impelia para o vigor, para a energia… mas nunca escrevi naquela perspetiva.

A sua poesia é de combate?

Toda a literatura é de combate.

Mas essa opinião resulta do enquadramento político, social e económico que Moçambique vive há anos, onde as esperanças de todo um país têm sido adiadas ou é o seu “sangue” que o exige?

Acredito que tem de haver um espírito algo irreverente. Pode ser que não se veja de imediato, mas vejo-me como uma pessoa inconformada. Diria mesmo que com tudo e alguma coisa. Depois temos a realidade que é o espaço onde vivo onde se debatem as questões sociais. É verdade que já faço parte de uma geração que não viveu os dramas da guerra de 16 anos, mas quando hoje vê os espectros da guerra assusta-se e lembra-se daquilo que sofreram os seus pais e avós. Neste sentido, sinto a responsabilidade de, de alguma forma, tentar perceber essa guerra com uma possível guerra de hoje. Sinto que não posso fugir. Estamos a falar do meu país que é minha casa.

Ou seja, considera-se um escritor de intervenção politica e social?

Como disse toda a literatura tem uma intervenção política. Há sempre uma espécie de militância e a minha narrativa, de alguma forma, tem de tocar essas questões. Claro que não posso deixar de me preocupar com o lado estético que é o que me interessa quanto escritor. Mas ser escritor em Moçambique, ou em África, obriga a falar dos problemas que existem e que nos afetam. Não digo que a literatura tenha de ter uma função social em si mesma, mas o escritor tem de ter uma consciência dos problemas.

Moçambique é um dos países do mundo com uma população mais jovem. Assim, perguntava como é que acha que os jovens veem o seu país daqui a dez anos?

Pessoalmente tenho alguma dificuldade de acompanhar, de forma diária, as questões políticas. Agora, quando vejo esta tentativa de acordo, esta tentativa de amainar as paixões não posso deixar de ficar otimista…

Mas os jovens da sua geração olham com esperança o futuro?

Acho que sim. Acho que é possível sonhar com um país melhor. Contudo, dez anos são um período relativamente curto para resolvermos os problemas estruturais do país. Acredito sim que daqui a dez anos estaremos a tentar acertar o passo. Mas tenho esperanças para o futuro do meu país. Para começar, tenho de ter, e por outro lado, o país tem também condições para isso. O país tem condições políticas e económicas, agora o que temos de fazer é resgatar um certo espírito patriótico que acho que se perdeu. No fundo, todos os problemas que estamos a enfrentar, sejam eles políticos ou económicos e que se alastram a toda a sociedade, poderiam ser ultrapassados…

Como?

Acho que falta aquilo que o Presidente Guebuza dizia sobre a autoestima e que foi mal interpretado por alguns sectores da sociedade. Quando olho para os meus colegas angolanos, e apesar de todos os problemas que têm, está estampado no artista angolano e até no cidadão angolano esta questão, esta autoestima que não temos da mesma forma. E Moçambique, de uma forma geral, os jovens têm de fazer por isso. Agora falta ainda alguma sociedade civil.

Acabou de lançar a “Rabhia”, mas não resisto perguntar-lhe se já tem mais livros na manga?

Os projetos existem, mas por enquanto vou deixar a Rabhia conquistar o seu espaço. Até porque ela ainda está a ocupar muito do meu imaginário. Seria muito provável que se iniciasse agora outro projeto, iria escrever uma versão da Rabhia e isso poderia mudar o meu próprio percurso.

Na apresentação do livro colocou uma enorme importância no apoio da família. É muito importante para si esse apoio?

É fundamental. Escrever obriga-nos a um trabalho muito solitário onde se constroem mundos, onde muitas vezes estamos sozinhos entre as pessoas. Mas estamos sozinhos e por isso é que a família é fundamental. Por vezes, e disse isso no lançamento do livro, excedemo-nos, mas tenho tido o suporte da família e isso é que é verdadeiramente importante.